Lendo ou ouvindo uns e outros, percebo
que o racismo não é tão fácil de ser entendido ou assumido. Afinal, somos arraigados
a uma cultura escravagista que dominou o país por trezentos e cinquenta anos. Tempo
em que o negro não era visto nem como um animal irracional, mas como “uma
coisa”. Uma coisa sem alma.
Passamos a ser o país do futebol
e do carnaval, eventos onde os negros se destacam. Convivendo com a raça negra,
nós, os brancos, raramente vemos, sentimos ou prestamos atenção às ações segregacionistas.
Os negros veem, sentem e percebem. Quase sempre, engolem em seco!
A nossa história talvez não nos
faça sentir racistas como deveria. A ideia de que racismo é quando queremos afastar
todos os indivíduos de pele escura do nosso entorno, com olhares ou à força, é
alimentada pelas narrativas vindas de países como os EUA e África do Sul quando
a segregação racial não era ilegal. Perto do que acontecia lá, aqui, nos
últimos tempos, sempre foi tudo maravilhoso para os negros. Pensamos!
Segundo o informativo
"Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil", divulgado no final
do ano passado pelo IBGE, 55,8% da população em 2018 era negra (pretos e pardos).
Entre os 10% dos brasileiros mais ricos, os brancos eram 70,6%, os negros,
27,7%. Na outra ponta, entre os 10% mais pobres, os negros eram 75,2% e os
brancos, 23,7%. A grande distância entre esses números desmente qualquer
discurso de que neste país as oportunidades são as mesmas para brancos e
negros. O Atlas da Violência, recentemente divulgado, informa que em 2018, os
negros representaram 75,7% das vítimas de homicídios. Ou seja, quase o triplo
em relação aos brancos. Considerando a equivalência entre a população branca e a
negra, a disparidade demostra que para matar um negro não se pensa duas vezes. É
nas pesquisas sobre trabalho e renda, crime, educação e participação política que
os grandes desvios são escancarados em relação ao conjunto da população. Nos
demais itens, distribuição normal.
Construímos a convicção de que o
problema dos negros brasileiros está na condição social, não na cor da pele, e
que eles são tão vítimas quanto os brancos pobres. Negro rico é outro papo.
Será? Não faz muito tempo, um alto
executivo do Bradesco passeava pela Rua Oscar Freire em São Paulo quando uma
funcionária de uma loja de grife se aproximou do filho dele de oito anos, negro,
distante poucos metros do pai, achando que o menino vendia coisas em frente à
loja. Sem fazer perguntas, expulsou o garoto da calçada. O menino não estava
sujo e muito menos usava roupas surradas. No Rio de Janeiro, um casal foi a uma
concessionária BMW. O filho negro que eles adotaram se distraia num espaço
apropriado para crianças, enquanto os pais avaliavam o veículo que pensavam
adquirir e que não era barato. Passou um tempo, o menino se levantou, indo ao
encontro dos pais foi barrado pelo gerente no meio do caminho. Sem perguntar
nada, disse-lhe que ali não era lugar para ele e mandou-o que saísse da loja
imediatamente. Esse menino estava limpo, cheiroso e bem vestido. Quem não se lembra
dos ataques racistas sofridos por jogadores consagrados do futebol ou do caso
em que um Policial Militar negro foi obrigado a tirar a roupa toda para provar
que não estava roubando as duas garrafas de vinho compradas minutos antes num
supermercado? E os ataques racistas sofridos por negros ricos e famosos nas
redes sociais? Em todos os casos, a cor da pele despertou o processo.
Desde 1969, o Brasil é signatário
da Convenção Internacional aprovada pela ONU, um ano antes, que diz que
discriminação racial é “toda distinção, exclusão, restrição ou preferência
baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por
objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício em
um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades
fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer
outro campo da vida pública”. Foi um avanço, mas nada foi feito para punir quem
descriminava.
Na África os negros eram livres e
felizes. Foram capturados, retirados das suas terras e das suas famílias,
colocados em navios que ofereciam as piores condições sanitárias e de
alimentação. Milhões morreram durante a viagem. Os que sobreviviam eram
considerados os mais fortes e, por isso, seus valores compensavam os negros
mortos jogados ao mar. No Brasil, viraram escravos. Só ganharam a liberdade por
pressão internacional, mas continuaram sendo “um coiso” sem condições
estruturais para viverem longe das fazendas e das casas que os escravizavam.
Apenas alguns negros “de alma branca” permaneceram no mesmo trabalho. A maioria
foi obrigada a buscar os cantões das cidades, dando origem às favelas, ou um abrigo
nos quilombos, muitos dos quais existentes até hoje. A raça branca era considerada
superior, intelectual, física e moralmente. Cresceu no seio brasileiro o
preconceito e a discriminação por causa da cor da pele, sem o respaldo de medidas
legais que configurassem, tais práticas, como crime racial. Só na metade do
século passado é que passaram a ser consideradas como contravenção penal. Quase
ninguém era punido.
Entre a abolição da escravatura e
a criação de uma lei que regulasse os respingos da relação com os negros se
passaram um século. Em 1989, o racismo passou a ser crime inafiançável e
imprescritível, que em caso de condenação, anos de cadeia ou multa, dependendo
do feito. Fazendo as contas, temos quatrocentos e cinquenta anos de
discriminação racial como ação cidadã normal alimentando a cultura do racismo
estrutural contra trinta anos vendo o racismo ser considerado crime. Uma
diferença de 420 anos.
Conclusão: Pelo que vi e ouvi
nesses tempos sombrios, poucas são as pessoas que assumem o racismo. A maioria
se coloca como não racista ou diz que não existe racismo no Brasil. Oras onde não
existe racismo, não existem racistas e muitos menos desigualdade e abusos por
conta da cor da pele. Essa maioria, então, bem que poderia se tornar antirracista
para anular as ações dos “raros” racistas empedernidos.
Lutar contra o racismo é tarefa de
uma sociedade que sonha viver em um país justo, igualitário, unido e com paz
social. O racismo só deixará de existir quando os negros, em sua totalidade,
sentirem que ele não mais existe. Não cabe a um branco dizer que não existe
racismo no Brasil, um branco nunca sentiu o mal que ele provoca. O resto é
discurso ignorante e de mau gosto.