Sempre que o assunto democracia entra na
roda, a definição dada por Winston Churchill é sempre bem-vinda: "Ninguém pretende que a democracia
seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de
governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em
tempos." Essa frase foi
dita pelo primeiro ministro britânico em 1947. Ela escancara o fato de que nenhuma
forma de governar pode receber o certificado da perfeição. Nem poderia, só
humanos integram todo e qualquer sistema político. Se não somos perfeitos,
nenhum sistema o será.
O
paradoxo de Churchill explica,
de certa forma, o que vem ocorrendo no mundo nos últimos tempos, mais
precisamente no embate atual que ocorre nos EUA, onde o voto é facultativo.
Historicamente, o eleitor americano não dá ao ato de votar a importância
devida. A maioria - seja pelas responsabilidades do presidente, no dia a dia,
serem menores que as dos governadores ou por acreditarem que os votantes
saberão escolher o melhor - desdenha a eleição presidencial. Em 2016, Trump foi
eleito graças à estratégia adotada por ele nos chamados estados-chaves e pela
apatia dos eleitores democratas. Menos da metade dos eleitores aptos decidiram
o futuro da nação. A eleição de Trump permitiu que inúmeros grupos
conservadores e radicais de direita, que já estavam em crescimento, se organizassem
e aparecessem, dando ao presidente americano respaldo para algumas iniciativas
que deixaram os democratas apáticos de cabelo em pé. Mas era tarde, o Trumpismo
tomou conta dos EUA.
As
apurações das eleições deste ano estão em curso. Não se sabe ainda quem será o próximo
presidente, mas tudo indica que os americanos acordaram do sono dos inocentes,
foram às urnas e mostraram que em democracia é possível cometer erros, mas aprenderam
que ela pode consertar os erros cometidos. Se não agora, mais adiante.
Para
amenizar esse despertar do povo americano e para inflar seus apoiadores, Trump
vem denunciando a existência de fraudes sem ter apresentado nenhum fato
concreto. Pode ser um tiro no pé. Não se questiona o valor do voto em nenhuma democracia,
muito menos nos EUA onde ela impera incólume a quase 250 anos. Ao questionar
fraude em uma eleição democrática não questiona apenas a honestidade dos
adversários, mas ofende a história e as leis do país, acusa todos as pessoas
envolvidas no processo, da votação às apurações e, sobretudo, renega a
verdadeira origem e licitude dos votos dados aos concorrentes. Na prática,
atitudes dos maus perdedores e não merecedores das faixas presidenciais que um dia
receberão o fardo da história e o desprezo da nação.