sexta-feira, 6 de novembro de 2020

O paradoxo de Churchill e as eleições americanas

 


 

Sempre que o assunto democracia entra na roda, a definição dada por Winston Churchill é sempre bem-vinda: "Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos." Essa frase foi dita pelo primeiro ministro britânico em 1947. Ela escancara o fato de que nenhuma forma de governar pode receber o certificado da perfeição. Nem poderia, só humanos integram todo e qualquer sistema político. Se não somos perfeitos, nenhum sistema o será.

O paradoxo de Churchill explica, de certa forma, o que vem ocorrendo no mundo nos últimos tempos, mais precisamente no embate atual que ocorre nos EUA, onde o voto é facultativo. Historicamente, o eleitor americano não dá ao ato de votar a importância devida. A maioria - seja pelas responsabilidades do presidente, no dia a dia, serem menores que as dos governadores ou por acreditarem que os votantes saberão escolher o melhor - desdenha a eleição presidencial. Em 2016, Trump foi eleito graças à estratégia adotada por ele nos chamados estados-chaves e pela apatia dos eleitores democratas. Menos da metade dos eleitores aptos decidiram o futuro da nação. A eleição de Trump permitiu que inúmeros grupos conservadores e radicais de direita, que já estavam em crescimento, se organizassem e aparecessem, dando ao presidente americano respaldo para algumas iniciativas que deixaram os democratas apáticos de cabelo em pé. Mas era tarde, o Trumpismo tomou conta dos EUA.

As apurações das eleições deste ano estão em curso. Não se sabe ainda quem será o próximo presidente, mas tudo indica que os americanos acordaram do sono dos inocentes, foram às urnas e mostraram que em democracia é possível cometer erros, mas aprenderam que ela pode consertar os erros cometidos. Se não agora, mais adiante.

Para amenizar esse despertar do povo americano e para inflar seus apoiadores, Trump vem denunciando a existência de fraudes sem ter apresentado nenhum fato concreto. Pode ser um tiro no pé. Não se questiona o valor do voto em nenhuma democracia, muito menos nos EUA onde ela impera incólume a quase 250 anos. Ao questionar fraude em uma eleição democrática não questiona apenas a honestidade dos adversários, mas ofende a história e as leis do país, acusa todos as pessoas envolvidas no processo, da votação às apurações e, sobretudo, renega a verdadeira origem e licitude dos votos dados aos concorrentes. Na prática, atitudes dos maus perdedores e não merecedores das faixas presidenciais que um dia receberão o fardo da história e o desprezo da nação.