sexta-feira, 29 de outubro de 2004

Prefeito administrativo ou prefeito político?

Se perguntássemos à população qual deve ser a postura do futuro prefeito — política ou administrativa? —, provavelmente a maioria optaria pela postura administrativa, com um discurso do tipo: “Chega de política! Queremos um bom administrador na prefeitura. E só.”

Esse desejo é tão evidente que os dois postulantes ao cargo, antes das eleições, adotaram um discurso administrativo em detrimento da postura política, oferecendo aos eleitores exatamente aquilo que eles queriam ouvir.

Nesse ponto, ouso discordar da maioria.

A postura administrativa cabe aos auxiliares dos governantes. Ao chefe do Executivo cabe, antes de tudo, uma postura política bem definida, capaz de nortear inclusive a escolha e a conduta de seus auxiliares diretos.

Um prefeito corrupto, por exemplo, dificilmente se cercará de auxiliares comprometidos com a honestidade e com o bem público. Muito pelo contrário.

Os políticos brasileiros, com honrosas exceções, são extremamente hábeis em promover a atividade política à condição de “coisa feia”, “coisa de esperto”, “coisa com a qual gente decente não se envolve”.

Esses políticos — e todos aqueles que se locupletam às custas do erário público — passam a ideia de que, ao assumir o poder, todos os governantes fazem a mesma coisa: roubam o dinheiro público.

Que fique claro: política é uma forma de conduta humana, uma atividade que se expressa em relações de poder, de mando e de obediência. Quando a ação está relacionada ao fenômeno do poder, estamos diante da política prática e aplicada, em que a arte política se traduz na capacidade de adquirir, conservar e ampliar poder.

O conteúdo dessa atividade tem como ideia central a luta pelo poder. Contudo, também se manifesta como ação de governar, cujo objetivo fundamental é organizar e dirigir a comunidade, buscando êxito em seus propósitos e metas.

Nesse sentido, o poder deixa de ser um fim em si mesmo para transformar-se em instrumento de institucionalização da própria ação política. Assim, o poder atua como antecedente constante e indispensável da ação política.

Quando um prefeito, ainda que bem-intencionado, opta no início de sua gestão por uma postura meramente administrativa, logo perceberá que não terá base suficiente para orientar suas decisões. Suas atitudes inevitavelmente buscarão fundamentos políticos, critérios de prioridade e noções de justiça — valores que podem ou não estar presentes.

A ausência desses valores, total ou parcial, pode provocar a repetição do processo vivido nos últimos 28 anos em nossa cidade, quando o trabalho administrativo prevaleceu sobre o político e criou as condições para um discurso dissociado da verdadeira política: sem ideologia, amparado em slogans sobre o bem da população e na lógica do “eu fiz, portanto estou certo”.

Foi por isso que, quando a oposição discordava, votava contra ou denunciava atos administrativos, era frequentemente classificada pelos prefeitos daquele período como inimiga do povo de Itapira.

Muitos “políticos” brasileiros, vestidos de bons administradores, encontraram nas grandes obras — especialmente nas mais grandiosas — oportunidades para rechear contas particulares em bancos nacionais ou em paraísos fiscais, além de acumular patrimônio imobiliário.

Não precisamos de um bom prefeito administrativo. Para isso bastariam um bom concurso, uma boa entrevista e a apresentação de diplomas das melhores universidades. Não haveria sequer necessidade de eleição.

Precisamos de um prefeito político — preocupado com o bem público, atento ao bem comum, ao meio ambiente, à higiene e limpeza da cidade, à saúde e à educação; consciente de seus acertos e erros; aberto às críticas, sem esperar elogios por cada ato executado.

Um prefeito que tenha coragem de admitir erros e corrigi-los.

O falso político transforma cada ato seu em acerto absoluto. E, quando erra, tenta convencer todos os discordantes de que os errados são eles. Quando não consegue, assume superficialmente os erros, mas continua preso às mesmas convicções.

Isso não é política. Isso é mera administração.

O verdadeiro político acerta na maioria das vezes porque reconhece o erro como possibilidade. E, quando erra, tem sensibilidade e grandeza para corrigir o rumo.