sábado, 29 de novembro de 2025

Reconhecimento póstumo: “Seu Zé Martelli”

 


Perdemos nesta semana o Seu Zé, após noventa e três anos bem vividos. Ele partiu sem que eu lhe dissesse, em voz alta, a lição que me ensinou.

Conheci Martelli ainda adolescente, quando ele trabalhava como caixa no Banco do Brasil. Naquela época, a agência ficava na esquina da Comendador João Cintra com a Bento da Rocha, no mesmo local e prédio onde funcionou, até alguns meses atrás, a agência da Caixa Econômica Federal. Para mim, ele tinha uma aparência severa. Sério no trabalho que realizava, não brincava em serviço e quase sempre mantinha uma expressão carrancuda. Eu não frequentava a agência todos os dias, mas, nas poucas vezes em que estive lá, via nele um funcionário compenetrado e de pouca conversa — alguém que parecia estar sempre brigado com o mundo.

O destino quis que, ao longo dos anos, eu me tornasse amigo dos filhos dele. Mesmo assim, eu insistia na impressão de que Seu Zé era uma pessoa rígida e de poucos amigos, sempre falando com firmeza. Era, na minha cabeça, a personificação do mais puro conservadorismo itapirense.

Com o tempo, já adulto, passei a conversar mais com ele. E, pouco a pouco, fui percebendo que minha imagem inicial continha equívocos profundos. Não demorou para eu descobrir que ele tinha um humor afiado, apreciava boas conversas e brincadeiras, além de possuir uma visão de mundo progressista e um nível de informação admirável. De conservador, só restava o amor quase vitalício por seu Corcel branco e o hábito de beber cerveja, todos os dias, em temperatura ambiente.

Aprendi com ele que, para conhecer alguém, é preciso muito mais do que um olhar atento: é preciso diálogo. Os ouvidos, e não os olhos, são os instrumentos mais adequados para essa tarefa. O olhar, quase sempre, apenas reforça nossos preconceitos. Certamente, cometi erros semelhantes ao julgar outras pessoas, mas nem todas me deram a chance de revisar minhas impressões antes que eu aprendesse a lição.

Obrigado, Seu Zé!

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A História Não Absolve


Que ninguém ignore: a História é implacável com os acontecimentos políticos e será fundamental para a nossa lucidez civilizatória. Sem os registros capturados e seu entrelaçamento global, o futuro repetiria os mesmos erros, negando às novas gerações a chance de compreender suas próprias origens. Além disso, abriria espaço para que aqueles que quisessem reescrever o passado o fizessem na tentativa de controlar a vida das pessoas.

A História não é contada por uma só pessoa; é uma construção coletiva que reúne verdades e memórias para os que virão depois de nós. É assim que a humanidade vem construindo este "mundão de Deus".

A História funciona como um arquivo definitivo, impedindo que ações e decisões políticas caiam no esquecimento ou sejam distorcidas. É o estudo das escolhas humanas e suas consequências, cujos registros nos permitem entender “quem somos”, “de onde viemos” e “para onde vamos”. Ela reflete o ciclo coletivo das nossas vidas e da humanidade.

Tudo o que acontece hoje e que pode impactar o futuro tem lugar de destaque na História, abrindo cenários para o desenvolvimento e a evolução da sociedade. Essa evolução não se baseia, em geral, em teorias abstratas, mas nas práticas e exemplos cotidianos.

Vivemos, nesta terça-feira, 25 de novembro de 2025, um dos momentos mais relevantes dos 525 anos de Brasil. O peso político de Bolsonaro não será decisivo para colocá-lo na primeira fila dos personagens mais relevantes. Os generais que participaram de mais uma tentativa de golpe – finalmente julgados, condenados e encarcerados – serão os destaques principais. Esse episódio anuncia que as Forças Armadas, daqui em diante, saberão ocupar o papel que lhes cabe, permitindo que a sociedade civil escolha seus próprios destinos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Nas Cavernas do Preconceito

 



No Dia da Consciência Negra, diante da persistente arrogância de quem se julga superior pela cor da pele, me peguei imaginando: como seria o mundo se a humanidade fosse desprovida da visão, assim como os animais que habitam as cavernas?

Seríamos incapazes de categorizar as pessoas ao nosso redor por suas origens. Em nossas mentes, não existiriam "amarelos asiáticos", "vermelhos indígenas" ou "negros africanos". Nossa convivência seria fundamentalmente igualitária, pois avaliaríamos os outros pela essência do seu caráter e pelas ações que realmente praticam. A própria palavra "preconceito" perderia completamente o sentido, tornando-se um termo arcaico, excluído de nossos dicionários. Homens e mulheres negros e pardos não carregariam o fardo de uma desconfiança ignorante e prévia, nem figurariam como as principais vítimas de injustiças históricas nunca reparadas.

Levei essa reflexão adiante e percebi que, sem a visão, também não faríamos distinções entre bonitos e feios, gordos e magros, altos e baixos, fortes e frágeis, pessoas com deficiência ou sem. Seríamos, por consequência, mais zelosos com cada palavra proferida e mais atentos aos sons captados por nossos ouvidos. As mãos se tornariam ferramentas de sensibilidade e verdadeira conexão. Suspeito que, assim, talvez vivêssemos em uma paz quase total, livres de guerras pessoais e conflitos mundiais.

Minha divagação, porém, não pôde se estender muito. A realidade é que a maioria de nós enxerga. Alguns com acuidade, outros com olhares seletivos. E há os que, possuindo visão perfeita, comportam-se como habitantes de cavernas, mergulhados em trevas interiores, cheios de preconceitos que os levam a abrir os olhos não para compreender o mundo, mas para julgar quem merece os louros do sucesso e quem deve carregar o fardo das mazelas humanas.

O mundo evoluiu muito pouco na arte de respeitar o próximo – alguns países mais, outros menos. Uma regra, no entanto, é clara e inegável: só teremos um mundo verdadeiramente melhor quando aprendermos a respeitar o outro incondicionalmente.