Desde que me conheço por gente, o Carnaval é daqueles temas que despertam
paixões positivas e negativas. Sem grandes alaridos, quem gostava, curtia; quem
não gostava, fugia. Ultimamente, os avessos à folia criticam, apontam mil
defeitos e tentam convencer os foliões a banirem o evento.
Da minha parte, não troco os carnavais das marchinhas e
das pantomimas nos desfiles de rua de Itapira pelo Carnaval da atualidade. Nem
poderia ser diferente; afinal, o hiato temporal alcança 50 anos. Mas reconheço
que isso não me dá o direito de condenar a festa de hoje em dia.
Nos anos 70, com o Brasil sob ditadura militar, o
Carnaval era uma "válvula de escape". Um período em que muitos
desejos contidos e condenados pela sociedade recebiam uma anistia ampla, geral
e irrestrita. Hoje, vivemos em uma democracia e a hipocrisia social perdeu
relevância. Mas, então, qual seria o motivo de tanta gente se sentir incomodada
com a folia?
Eu diria que é difícil, para alguns, entender as
mudanças geracionais. Antigamente, um estilo musical, uma moda ou um conceito
duravam pelo menos um ano; hoje, dependendo do caso, não duram um mês. Por
isso, o acompanhamento é difícil e gera perda de referência dos rituais que dão
sentido às nossas vidas.
Há quem decrete que o Carnaval morreu. No entanto,
quando comparamos o número de pessoas envolvidas dos anos 70 para cá, o público
aumentou em 1.000%, enquanto a população apenas dobrou. Só a cidade de São
Paulo deve reunir de 15 a 20 milhões de foliões. Se antes o Rei Momo reinava
por quatro ou cinco dias, hoje o reinado dura quase um mês. Naquela época, os
pontos altos eram a alegria, o sentimento de liberdade e o movimento. Agora, o
retorno econômico ocupa o primeiro lugar na lista.
Queiramos ou não, o Carnaval é o espelho da sociedade
brasileira. Como o Brasil mudou drasticamente de 1970 para cá, a maior festa
popular do mundo não ficaria parada no tempo só para agradar à minha geração.
Se antes era uma festa coletiva, mas de forte apelo individual, hoje é uma
indústria de entretenimento.
O Carnaval continua "parando o país". A
diferença é que, antes, a gente vivia; hoje, a gente também consome. De
preferência, sem ódio!

