sábado, 27 de abril de 2024

Banda Lira, uma banda sempre viva!

Naquela noite, no Salão Social do Clube de Campo Santa Fé, em 14 de abril, algo especial aconteceu. Embora não tenha sido explícito, tenho a forte suspeita de que meu pai estava presente. Talvez tenha solicitado e obtido uma licença celestial, justificada mais do que merecidamente. Afinal, era o aniversário de uma das joias culturais mais importantes de nossa cidade: a Banda Lira Itapirense. Com seus 115 anos de história contínua, meu pai dedicou mais de meio século de sua vida ao saxofone dentro dela. Só desistiu quando seus dedos já não respondiam tão prontamente. O aniversário da banda era um evento especial para ele, e tive a sorte de participar de alguns ao seu lado. Até hoje, guardo na memória a felicidade estampada em seu rosto e as risadas contagiantes durante os ensaios e apresentações. Era sua vida!

Na época de meu pai, a composição da banda era totalmente diferente da atual. A maioria dos músicos ultrapassava os sessenta anos, e seu repertório refletia as melodias típicas das décadas passadas. As apresentações dominicais na praça central eram momentos de destaque, mas ao longo do tempo, o público dessas tradições foi diminuindo, restando apenas alguns casais que levavam seus filhos para apreciar a música. Entre esses espectadores estavam eu, minha esposa e meus filhos, encantados ao ver o Vô Geraldo entregando-se ao saxofone. A última apresentação no coreto foi uma despedida melancólica, selando o fim da nossa praça central como o centro de encontros e agitações de gerações passadas. No entanto, isso não significou o fim da nossa Banda Lira.

À beira do final do século passado, Mauricio Perina assumiu como maestro, enfrentando o desafio monumental de revitalizar nossa tradicional banda de música. Com competência e paciência, ele conseguiu manter, transformar e rejuvenescer a banda. Claro, houve momentos difíceis, e por pouco não vimos o poder público municipal abandonar nossa tradição. Mas também testemunhamos o povo de Itapira se levantando em apoio, demonstrando solidariedade de todas as formas até que a razão e a emoção prevalecessem.

Naquela noite, meu pai, não sei se por falta de permissão ou por ter ficado tão embasbacado, nem tentou conversar comigo. Mas consigo imaginar o que ele sentiu ao ouvir duas horas de música envolvente. Embora não fosse o seu repertório habitual, o rock não fazia parte dos seus gostos e costumes, ele certamente se rendeu à qualidade da apresentação. Certamente, ao retornar ao seu canto, ele compartilhou as novidades com seus amigos e antigos colegas da banda.

Hoje, a Banda Lira está completamente renovada e rejuvenescida, diversificando-se e incorporando novos instrumentos. Ela desenvolve projetos especiais com crianças, jovens, adultos e idosos, levando cultura e nutrindo o amor pela arte em nossa cidade. Assim, floresce a maior riqueza humana: a apreciação pela expressão artística. 

terça-feira, 16 de abril de 2024

O lixo nosso de cada dia e o lixo nos contratos

De tempos em tempos, deparamo-nos com relatos de cidades enfrentando problemas na coleta de lixo, muitas vezes desencadeados por greves dos trabalhadores. Desta vez, em Itapira, a situação não foi motivada por uma greve, mas por outras razões.

Há algum tempo, os moradores da cidade e dos bairros rurais têm expressado suas queixas nas redes sociais, enquanto os veículos de imprensa locais têm noticiado que o sistema de coleta de lixo não estava cumprindo sua finalidade adequadamente. Por um período considerável, os dias de coleta eram simplesmente ignorados, sem qualquer aviso prévio. Agora, ao término do contrato, a empresa simplesmente suspendeu o serviço antes do previsto, segundo a prefeitura.

Uma vez vencedora do processo licitatório e com o contrato assinado, a empresa tem a obrigação de cumprir rigorosamente todas as suas obrigações estabelecidas. Caso contrário, o poder público está obrigado a aplicar as penalidades previstas, tais como advertências para falhas menos graves, multas, proibição de participação em novas licitações e até a declaração de inidoneidade. Desta forma, a administração municipal dispõe de instrumentos para evitar serviços inadequados e prevenir que a população sofra maiores consequências.

É comum no Brasil depararmo-nos com obras inacabadas, serviços prestados fora dos termos dos editais ou interrompidos abruptamente. Muitas vezes, esses problemas decorrem de contratos mal elaborados ou, ainda pior, contratos direcionados para beneficiar empresas específicas ou até mesmo determinados políticos ou funcionários.

Além da dificuldade enfrentada pela população ao ver o lixo se acumular, atraindo baratas, insetos, ratos e outros visitantes indesejados, tanto a empresa quanto a prefeitura, segundo os reclamantes, falharam em fornecer explicações quando solicitadas. A obrigação do poder público era antecipar-se ao problema, oferecer alternativas ou, no mínimo, informar sobre o tempo necessário para regularizar o serviço e orientar sobre como proceder até que a situação se normalize, evitando, assim, o acúmulo de lixo nas ruas por tanto tempo.

Estamos em ano eleitoral. Que os candidatos a prefeito também se preparem adequadamente para enfrentar os processos licitatórios, visando ao bem-estar da população, e desenvolvam mecanismos para que obras e serviços sejam executados conforme planejado, em respeito à vida e ao dinheiro do contribuinte.

Concluindo, a substituição da empresa não é suficiente para resolver a questão; é essencial que a administração municipal seja transparente quanto aos procedimentos adotados e mantenha os contribuintes devidamente informados, dissipando quaisquer dúvidas desde o início do processo. 

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Viver é envelhecer?

Num dia especial, reunimos amigos numa chácara, entre eles, um grande violonista itapirense. Seus dedos, outrora hábeis em animar nossos encontros, não mais respondiam. Ele sinalizava uma possível depressão senil. Convidamo-lo para ajudá-lo e, em meio à conversa, fiz-lhe uma pergunta simples: "Você, com seus 86 anos de vida tão bem vividos, já viu muitos amigos partirem?" Ele me olhou, refletiu em silêncio por um instante e, finalmente, respondeu: "Ah, foram tantos! Perdi até a conta. Foram cedo demais." A partir desse momento, ele se abriu, contando histórias vividas, rindo das brincadeiras típicas de um churrasco entre amigos. Percebi que ele havia captado algo óbvio: embora envelhecer possa não ser fácil, há muitas coisas boas para se recordar e valorizar. Vale a pena! 

O processo de envelhecimento é inevitável e influenciado por fatores genéticos, ambientais e metabólicos. Atualmente, cientistas dedicam-se a compreender as causas biológicas do envelhecimento, buscando maneiras de retardar ou até mesmo deter seus sinais. Estima-se que os consumidores gastem cerca de 60 bilhões de dólares anualmente em tratamentos antienvelhecimento, em busca de uma aparência mais jovem. O bioquímico Venki Ramakrishnan, agraciado com o Prêmio Nobel de Química, abordou essas questões em seu livro "Why We Die: The New Science of Aging and the Quest for Immortality" (Por que morremos: a nova ciência do envelhecimento e a busca pela imortalidade).

Num futuro próximo, espera-se uma significativa ampliação da expectativa de vida, assim como vimos saltar de 25 para os 45 anos, do início dos tempos até meados do século passado e, posteriormente, para os 75. Para garantir um envelhecimento saudável, medidas como alimentação equilibrada e moderada, exercícios físicos regulares, consultas médicas periódicas e uso adequado de medicamentos são cada vez mais adotadas. Envelhecer com serenidade implica aceitar as mudanças físicas e emocionais de forma positiva, mantendo-se ativo e valorizando os relacionamentos familiares e de amizade. Como diz Zeca Pagodinho, deixemos a vida nos levar.